Bíblia

By Eduardo Albuquerque - 12/07/2015




"Bíblia" é o nome que se dá para um documento muito importante para a produção serializada de televisão. A Bíblia é um longo documento que basicamente compreende todas as "verdades" com as quais a série e todos que a compram "concordam". Ela é usada tanto na venda da série - para que o comprador consiga visualizar o que ele estará comprando na cauda longa - quanto no decorrer da mesma, para que o time criativo não se perca.

Não existe uma regra do que se deve conter uma Bíblia. Pode ter 5 ou 55 páginas. Nunca há demais nem de menos. O criador que deve dizer o que é e o que não é pertinente e ter bom senso para determinar isso. Há casos folclóricos de bíblias sensacionais e super diferentes. Pendleton Ward, criador de "Adventure Time", desenho do Cartoon Network que já é um clássico, anexou um cd à sua bíblia com uma música do Finn - quem assiste deve imaginar mais ou menos como era - criada por ele para passar o clima. Eu mesmo, junto com o querido parceiro Calvito Leal, vendi uma série com a O2 Filmes para a Rede Globo em 2010 chamada "São Jorge" sobre um time fictício de futebol e a Bíblia tinha uma seção que era uma espécie de almanaque da história de todo o campeonato carioca, com todos os campeões, de 1903 até 2010. Pode parecer exagero, pode parecer até pedante/amador o nível de informação e abstração em ambos os casos, mas não é. Isso mostra o quanto os criadores estão por dentro daquele universo, enamorados e seguros, conscientes. Eu senti essa resposta cristalinamente no meu caso. Claro, tem sempre os manés com piadinhas veladas, mas a Bíblia do SJ foi um marco no mercado à época, muita gente que eu nem tinha idéia que sabia que eu estava desenvolvendo a série vinha nos congratular pela qualidade da Bíblia e comecei a ser meio "conhecido" por desenvolver séries e, assim, fui sendo chamado pra trabalhar em vários desenvolvimentos de série ("Santo Forte" da AXN, "O Grande Gonzalez" da FOX, inúmeras que nunca viram a luz do dia e por aí vai). O genial-mestre-ídolo Nelson Motta, que escreveu conosco os episódios (pra você ver como esse projeto era especial), me confidenciou que ao ler o hino fictício do São Jorge na Bíblia, que ele fisgou de vez e decidiu aceitar o convite pra entrar no time. Portanto, reitero, faça tudo que você julgar importante para pintar o mundo que será retratado e o potencial de desdobramento de tramas. Só você saberá dizer o que é maneiro e o que é too much. Saiba que, diferente dos roteiros, que são peças técnicas apenas, as Bíblias são sim um fim em si mesmo. A leitura dela tem que ser prazerosa e fazer a mente do leitor ir a vários lugares. Pros que ficavam tristes quando eu falava que roteiro não era literatura; eis o momento de você fazer literatura!

De todo modo, acho que, no mínimo, estes itens caem bem pra todas as bíblias:

  1. Series Concept
    Qual a premissa por trás da sua história? "Um show sobre o nada"? "O lado sexy da medicina"?  Seja o que for; como isso será visto em tramas?

    Gosto de um series concept de uma página certinha, com um texto de 4 parágrafos. O primeiro é uma afirmação de um conflito e os dilemas que ele pode trazer e, em algum lugar dele, você apresenta o título da série. Se conseguir fazer isso na última linha do parágrafo, ponto extra! No segundo parágrafo, você explica como esse conflito se dá na sua série, apresentando o(s) seu(s) protagonista(s) e apontando porque ele(s), colocado(s) naquela situação, vai(vão) produzir drama pra gente semana após semana. No terceiro, it's all about questions. Você deu os dois elementos chaves da série e agora tem que estimular o leitor a pensar como eles juntos vão produzir faísca. Apresentar questões, das superficiais às profundas que você pretende discutir naquela série. Este é o momento de botar seu coração e cabeça no papel. O quarto é pegar tudo isso e fazer suas melhores frases marqueteiras para fechar com um BOOM!
     
  2. Series Settings
    É o pano de fundo, de certa forma. O mundo onde isso tudo está inserido. Em "ER" é o hospital County General; seu perfil de funcionamento, seu clima, seu estilo. Já em The Sopranos é, não somente Nova Jersey, mas o mundo da máfia como um todo naquele contexto pós anos 90, começo dos anos 2000. É, portanto, um mergulho no contexto que cerca a série. O local/mundo onde o drama pessoal do personagem (em conflito com algum dilema/questão que vemos normalmente na vida) está inserido. Meia página a 1 página tá maneiro também.
  3. Personagens
    Cada um dos personagens, dispostos em ordem de protagonismo. Um erro muito comum que vejo: não é pra você escrever o que ele vai fazer. É pra escrever quem ele é. É ok dar um pouco de backstory dele; isso faz ele ser quem ele é, certo? Mas o que se espera aqui é um texto-apreciação da personalidade dele. Os trejeitos, as características, os medos, as paixões, as contradições... e o porquê dele na história. Sua importância. Mas, de novo, não é "ele é importante porque ele vai dar o primeiro emprego ao protagonista". O executivo quer visualizar as possibilidades destas peças na sua história para que ele mesmo possa depois pitch uma idéia pra você. O grande truque destas coisas é você manter todo mundo se sentindo participativo; se não tem nada pra adicionar, eles sentem que não tem função pra eles e poderiam ser substituidos. Então, o personagem é importante porque "será a única pessoa que acredita no protagonista, a pessoa que nos momentos mais escuros traz o protagonista a luz" etc. É quase matemático o tipo de pensamento que você tem que tentar convir a quem lê: "esse sabe fazer isso e se comporta assim, esse outro se comporta assado... hmm, vai dar briga, então, e pode acabar sucitando isso e aquilo..."
  4. Arco de temporada/Sugestão de episódios
    Um parágrafo grandinho descrevendo as trilhas de histórias dos personagens  para cada episódio. Em caso de stand alone, alguns pitches de tramas. Eu não gosto desta parte, pois acho que só se deve fazer isso direitinho durante o desenvolvimento. Então, se to fazendo a bíblia para venda, eu dou uma pincelada branda. Prefiro, mesmo em séries cheias de arco, sugerir umas 4 ou 5 histórias soltas pra que se entenda o potencial, mas sem entrar nos detalhes de arco, pois acaba criando a possibilidade de ter um ou outro galho frouxo e o executivo, injustamente, se prender a isso e avaliar todo o potencial (Biblia deveria ser avaliada apenas pelo potencial!) pra baixo por causa disso.Se já estivermos fazendo a Biblia pra ser produzido, aí ok, voc6e faz o desenho todo do arco e coloca ali para que ninguém esqueça.

Resumindo; é isso. Temporada após temporada, você re-abre a bíblia e adiciona as verdades novas que surgiram. Uma boa Bíblia mostra o potencial da série e fisga uma venda e se coloca de um jeito que a série possa andar mesmo que você, o criador, não esteja envolvido.

O tamanho, como eu disse, você que dita. Isso aí foi só uma sugestão. Cada canal pode pedir algum item específico. Podem pedir coisas nada ver tipo orçamento e outras tristezas. Mas, no meu livro, este é um bom caminho. Gosto assim como descrevi; obtive relativo sucesso nesse formato. Mas quando o projeto pedia algo diferente, eu ia com o que o projeto pedia. Faça o mesmo!

Para finalizar, eis um exemplo de uma bíblia clássica, que ditou muita coisa nesse jogo: The Wire. Baixem e, se nunca viram, assistam esta série que é provavelmente a melhor série de todos os tempos. Acho que Breaking Bad é a série com a melhor noção de meio, com o melhor equilíbrio e destreza narrativa episódica, melhor "what's next?!", mas The Wire é... além disso. É melhor série, melhor tudo. É sinistro.

  • Share:

You Might Also Like

2 comentários

  1. Perfeito, mas como fazer com que ela chegue ao lugar certo?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Como assim? Lugar certo criativamente ou comercialmente?

      Excluir