Os documentos de um longa: Escaleta

By Eduardo Albuquerque - 3/09/2015



Dificilmente um roteirista senta e escreve de cara um roteiro. Antes disso, na maioria das vezes, ele escreve outros documentos próprios e anteriores ao roteiro final. Por dois motivos (i) seria amadorismo; 9 vezes em 10, passar por cada um desses documentos deixa o resultado final melhor e (ii) profissionalismo; como o cinema é um esporte coletivo as outras pessoas integrantes do projeto (produtores/diretores) precisam entender o filme que você está fazendo para que eles tenham a segurança de que é o mesmo filme que eles desejam.

Nesta série de 4 posts, falarei sobre cada um dos documentos. Nesta terceira parte falaremos sobre a Escaleta.

A definição de escaleta varia sua complexidade de pessoa a pessoa. Já vi alguns casos onde a escaleta é só um codinome para lista de locações. Mas na maioria das vezes – e é assim que eu faço – ela é mais do que isso: uma lista de locações com a descrição do que acontece na cena naquela locação; se possível com algum rascunho de diálogo.

A Escaleta é um documento que será discutido de novo pela trinca produtor-diretor-roteirista, porém, enquanto Argumento e Beat Sheet são documentos exclusivos da pré-produção, a Escaleta é o primeiro documento que irá influir de fato na produção. Ou seja; o Diretor de Produção, munido da lista de locações (e quantas vezes aparece cada uma das locações) já pode começar a pensar brandamente num plano de filmagem e mandar o Produtor de Locação já ir buscando opções de lugares para filmar tais cenas. Você não está mais em Kansas! A coisa ta ficando séria! Aquilo que era imaterial e ficava ali só na sua mão agora ta passando por todo mundo, dividindo em mil áreas... tá dando pra entender porque Cinema é um esporte coletivo, né?

No entanto, apesar desta funcionalidade a outras áreas ser parte do trabalho, a Escaleta também serve ao principal do seu trabalho: o roteiro, que, até agora!, ainda não veio. Se o Beat Sheet foi o primeiro documento que fez notar a variável cinematográfica, com os plot points de uma estrutura narrativa de longa-metragem, a Escaleta vai mais além e, pela primeira vez, divide a história na terceira e na segunda menor unidades fílmicas : as sequências e as cenas.

As sequências já estarão bem desenvolvidas, pois elas começaram a ganhar forma no Beat Sheet e aqui devem estar mais esmiuçadas, uma vez que você já pode dizer mais ou menos que a sequência de perseguição do Herói para resgatar a Mocinha dos braços do Vilão, se dará em uma perseguição no porto da cidade, se encerrando numa corrida de Jet-ski ou whatever; um exemplo. As cenas poderão (e serão!) aperfeiçoadas na hora de fazer o roteiro, mas já aparecerão ligeiramente quebradas e com algumas pequenas indicações relativas à diálogo e especificidades da ação dentro da cena.

Resumindo, Escaleta é a história do seu filme quebrada cronologicamente no Espaço-Tempo. Ou, matematicamente, Scene Heading (espaço-tempo) + Descrição do que acontece. O exemplo acima ficaria mais ou menos assim:

INT. PORTO/GALPÃO – DIA
O HERÓI chega esbaforido correndo e se depara com o VILÃO que tem a MOCINHA algemada a ele.
“Você nunca vai nos pegar, Herói!” – diz o Vilão, que logo sai correndo e joga uma granada pra cima do Herói.

EXT. PORTO/DOCAS – CONTINUOUS

O VILÃO vem correndo arrastando a MOCINHA pelas algemas quando ... BOOM! A MOCINHA sofre, bate no VILÃO e maldiz ele por ter matado seu amor. O VILÃO diz que agora ela vai aprender a amá-lo e ela diz algo como “Eu nunca vou sentir por você o que eu sentia pelo Herói!”.

É quando o Vilão avista um vulto... O HERÓI sobreviveu!!! Ele sai do meio da fumaça que nem o Exterminador do Futuro. Boladão. O VILÃO pula com a MOCINHA num JETSKI e dá partida.

EXT. MAR ABERTO – CONTINUOUS
O VILÃO comenta que agora não tem como eles serem pegos, pois só havia aquele JETSKI no Porto. É quando a MOCINHA aponta para o seu Herói, que vem sendo trazido por DOIS GOLFINHOS.
“Come on! GOLFINHOS?! Sério?!” – um incrédulo VILÃO, que tem o Herói já se aproximando perigosamente.

Sacaram?

É a ordem dos acontecimentos, ainda não completamente finalizados. Os diálogos não estão todos ali (apenas um ou outro), mas as locações já estão apontadas grosso modo. Mesmo que no roteiro se altere uma coisa ou outra, é importante que a produção esteja ciente e comece a mensurar essas coisas.

Nesta etapa você QUASE já quer começar a escrever o roteiro de fato - tenho uma teoria de que, além da utilidade lógica de cada documento, inventamos estes processos todos para adiar ao máximo o momento de escrever de fato o filme, de definitivamente tornar a coisa real e por isso menos ideal/perfeita, até o momento que não agüentamos mais essa história e queremos partir para a próxima, onde tudo vai ser ideal/perfeito... até o momento que você escreve de novo e estraga e aí volta tudo ao início. Mas não se entregue! Calma, falta pouco!

Tome o tempo necessário pra fazer a Escaleta, pois ela é importante pra você e também para os outros. Imagina chegar até aqui e desistir e depois de tanto trabalho não ter um filme na tela pra você sentar, assistir e falar “ah, valeu a pena tudo aquilo!”?

Força, roteirista!

Índice da série "Os documentos de um longa":
Parte 1: Argumento
Parte 2: Beat Sheet
Parte 3: Escaleta
Parte 4: Tratamento

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