Os documentos de um longa: Argumento

By Eduardo Albuquerque - 3/02/2015



Dificilmente um roteirista senta e escreve de cara um roteiro. Antes disso, na maioria das vezes, ele escreve outros documentos próprios e anteriores ao roteiro final. Por dois motivos (i) seria amadorismo; 9 vezes em 10, passar por cada um desses documentos deixa o resultado final melhor e (ii) profissionalismo; como o cinema é um esporte coletivo as outras pessoas integrantes do projeto (produtores/diretores) precisam entender o filme que você está fazendo para que eles tenham a segurança de que é o mesmo filme que eles desejam.

Nesta série de 4 posts, falarei sobre cada um dos documentos. Vamos começar com o Argumento.

Veja, idéia não é patrimonial. Você não registra. Woody Allen diz que o momento que ele passa a não gostar de seu filme é o momento que ele digita a primeira letra no papel e a primeira letra muito provavelmente será a de um Argumento, pois ele é o standard da indústria para registro e financiamento de projetos em editais (tanto de desenvolvimento quanto de realização mesmo). Ele costuma ter de 5 a 15 páginas e a melhor maneira de descrevê-lo é como se fosse um “conto” do seu projeto. Imagine-se contando a história do seu filme do início ao fim para um amigo, incluindo aqui e ali, se necessário, algum diálogo curto dos personagens.

O Argumento será lido apenas pelo topo da pirâmide criativa do projeto: produtores, diretores e os roteiristas. Se não forem os autores; os Produtores lêem o argumento para se interessarem e entenderem que filme que aquele será e o que ele deve fazer para que aquele filme aconteça (orçamento, quais editais, quais profissionais ele deve buscar), os Diretores lêem o argumento para se interessarem e entenderem que filme que aquele será e como ele deve fazer para que aquele filme aconteça e, os Roteiristas lêem o argumento para se interessarem e entenderem que filme que aquele pode ser e adaptá-lo para roteiro. Além destes, o Argumento também será lido por possíveis julgadores de editais financiadores de desenvolvimento e de realização de projetos.

Eu acho um documento fraco para venda de um filme. Acho que esta natureza de parecer um “conto” o distancia muito do roteiro de fato, pois um Argumento simplesmente não carece de estrutura, pode ser feito só na piração de descrição do mundo/personagem e um simples “vai daqui até ali”, sem explicar como fará pra chegar lá. Sem explicar o que, de trama, acontecerá para que o personagem chegue lá. Se eu fosse executivo de cinema aqui no Brasil, escolheria os projetos/daria greenlight a partir de Beat Sheets (próximo post da série) e não Argumentos, pois eles estão mais próximos de um filme e o tempo que leva para fazê-los é bem próximo. Começar uma relação pelo argumento é perigoso, pois você começa a fazer compromissos com coisas que foram colocadas ali por conta da “ambientação” do Argumento, mas que não necessariamente terão lugar numa estrutura de filme. Mas não sou Executivo de Cinema e o Argumento é o documento standard da indústria para iniciar um projeto e inscrevê-lo em editais. Dificilmente se pede o roteiro mesmo.

Índice da série "Os documentos de um longa":
Parte 1: Argumento
Parte 2:
Beat Sheet
Parte 3: Escaleta

Parte 4: Tratamento

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