Os documentos de um longa: Tratamento

By Eduardo Albuquerque - 3/10/2015


Dificilmente um roteirista senta e escreve de cara um roteiro. Antes disso, na maioria das vezes, ele escreve outros documentos próprios e anteriores ao roteiro final. Por dois motivos (i) seria amadorismo; 9 vezes em 10, passar por cada um desses documentos deixa o resultado final melhor e (ii) profissionalismo; como o cinema é um esporte coletivo as outras pessoas integrantes do projeto (produtores/diretores) precisam entender o filme que você está fazendo para que eles tenham a segurança de que é o mesmo filme que eles desejam.

Nesta série de 4 posts, falarei sobre cada um dos documentos. Para finalizar, falemos sobre o Tratamento.

Na real, o Tratamento é finalmente o Roteiro em si. Ele tem essa nomenclatura porque, obviamente, você não escreve ele do início ao fim uma vez e corre pro abraço. É um longo processo, amigão. Muita coisa vai mudar, por questões de produ$ão, timing e o que mais for. Então, cada vez que você re-escreve o Roteiro até o fim e entrega de novo para toda a equipe de produção do filme (mais próximo da filmagem, inclui-se aí arte, figurino etc.), chamamos de “Tratamento”. E numera-se. Primeiro tratamento, Segundo tratamento e por aí vai.

Apesar de volta e meia um diretor de produção (ou qualquer outra pessoa de produção) te pedir pra numerar as cenas, na teoria você não deveria fazer isso. Numeração de cena é um quesito que cabe ao Assistente de Direção, pois a numeração não é uma coisa criativa e sim de ordem de set. E o rei do criativo+executivo é o Assistente de Direção. Por isso você vai ver muito tratamento aí com numeração 23-B, 82-A ou algo que o valha. Não se desespere, tem algum sentido para ele. Não fique bolado também quando alguém fala “na cena X” e você não faz idéia de que cena é essa. Você nunca saberá. O que te importa é o que acontece na cena. Se a pessoa falar o que rola na cena e você não lembra exatamente TUDO o que acontece na cena, aí sim é um problema.

Este é o momento que você se dá conta de vez que a coisa não é só mais sua. Nunca foi, mas - igual pai que só entende que é pai quando vê o bebê pós-parto - agora cai a ficha de verdade de que é uma obra coletiva. De tal modo que pode rolar um tratamento no qual você nem faz nada; com sua supervisão ou não – seja esperto nos seus contratos - chamam outro roteirista pra fazer um tratamento. Pratique o desapego e aquela regra lá; se for seu, vai voltar.

E, por fim, faça um joguinho consigo mesmo de tentar fazer o menor número possível de tratamentos que você conseguir, mas não se martirize quando se vir já no enésimo tratamento. Não é necessariamente sua culpa, é um processo dinâmico, onde tanto acontece que o que importa é que tenha um fim. O pior que pode acontecer com um roteiro é ele ter o fim do seu ciclo como um tratamento e não como um filme.


Índice da série "Os documentos de um longa":
Parte 1: Argumento
Parte 2: Beat Sheet
Parte 3: Escaleta
Parte 4: Tratamento

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2 comentários

  1. Parabéns, cara, muito boa a sua série sobre os processos de construção de um roteiro, me me perdi um pouco quanto à formatação do beat sheet... Gostaria de entender um pouco melhor, seria interessante ver um post mais aprofundado dessa fase do processo.


    Abraços

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    1. Opa!
      Mesmo você não deixando o nome (adoro saber o nome dos leitores) eu fiz um super post detalhadão respondendo sua indagação. Destrinchei legal o beat sheet neste post: http://www.saladosroteiristas.com.br/2015/10/beating-shit-out-of-beat-sheet.html

      Espero que tenha ajudado!

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