Stock scenes

By Eduardo Albuquerque - 6/03/2015



O alarme toca e o personagem acorda e começa a sua rotina diária. Os "caras" assistindo um jogo de futebol na TV com cerveja e snacks. As "garotas" walk and talk em meio a compras (supermercado, shopping...). Pais na sala do diretor da escola ouvindo sobre o filho. Médico chega à sala de espera para dar notícias para os parentes do paciente.

Você já viu essas cenas. Milhões de vezes. São cenas "de gaveta", stock scenes, e você, roteirista, devia, por isso, evitar escrevê-las. Quando nós espectadores vemos algo parecido com que já vimos, tendemos a achar que é a mesma coisa e ficamos desinteressados. Será que não tem alguma situação mais diferente, mais original para você inserir sua cena? Por que a funcionalidade de uma cena quase nunca é a ação em si. O alarme toca e vemos a rotina diária do personagem pra introduzir sua personalidade etc. O alarme e a rotina são o de menos, correto? A personalidade dele pode ser mostrada de outra forma. Tanto faz o placar do jogo na TV ou o fato de ser o time X ou Y; você escreveu a cena pra mostrar os caras unidos e possivelmente um personagem discutindo algo com seus comparsas, certo?

Há sempre um jeito diferente e fresquinho de inserir sua cena - e não estou nem falando de pegar estes clichês e subvertê-los, ex: "O alarme toca o cara acorda e HOLLY SHIT! A menina do lado tá morta com um machado na cabeça e... WHAT?! Ele nem se importa! Veste a roupa e vai embora!" Ou algo mais simples, só invertendo mesmo, tipo, sei lá "O filho na sala do diretor da escola ouvindo sobre os pais".

A chave, na real, é pensar sempre no "porquê" das cenas e, aí, ver se não tem um setting diferente para inserí-las, uma ação que fuja da mesmice para que o leitor/espectador se mantenha interessado. Mais importante até: pense no "porquê" para achar o setting mais apropriado para a razão da cena. No final das contas o problema das "stock scenes" é esse: além de ser meio enfadonha e tirar o espectador do foco, ainda dificilmente constrói um significante para o significado. Ela é de todo mundo e assim se torna de ninguém. A cena de Demi Moore e Patrick Swayze com as mãos na argila em "Ghost" não virou um clássico porque cerâmica é muito divertido e sim porque é uma metáfora perfeita para a questão principal do filme que é o "toque", ou melhor, o "não poder tocar" e o amor que transcende a sua barreira mais primal/humana: o toque. Afinal, o vaso de argila existe através do toque e do team-work... coisas que esse casal vai perder logo logo e, você, espectador, sabendo disso, acha lindo e romântico aquele vazo nojento com  formato fálico. Bruce Joel Rubin, roteirista deste tremendo filme, poderia ter apelado pra alguma stock scene, como um jantar à luz de velas, pra mostrar que o casal se amava, função desta cena, mas escolhendo uma ação pouco vista antes (nunca?) e que fazia super sentido com o dilema dos personagens, criou um momento icônico da cultura pop que perdura até hoje no imaginário do público moviegoer.

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