GREVE DOS ROTEIRISTAS

By Eduardo Albuquerque - 4/25/2017



Com presença recorde de 67.5% de seus membros, o Writers Guild of America votou SIM, permitindo que sua diretoria determine greve geral. A aprovação foi quase unânime: impressionantes 96.4% dos votos.

A greve começará dia 2 de Maio após inúmeras negociações do sindicato com a MPAA (Motion Pictures of America Association), orgão que reúne as Majors de cinema e TV, reinvindicando aumento no salário dos roteiristas. Mas pra entender o pleito, temos que ir um pouco mais atrás:

Se na última greve (2007), a questão girava em torno dos residuais de direitos autorais na internet e outras janelas que logo depois estouraram (imagina se não tivesse rolado o quanto que iam lucrar com Netflix etc. sem sobrar nada pra quem escreveu aquilo?), dessa vez, parece mais simples, mais "queremos mais dinheiro", mas não se trata de ganância ou ajuste de inflação. E essa é a primeira parte que nos interessa, mesmo assim tão longe do mercado americano: a questão é que, com este boom provocado por estas tais janelas de video on demand, a indústria como um todo se transformou. O espectador passou a estar no controle da situação e, ao invés de ter que sentar e esperar o "provedor de conteúdo" dar um episódio de sua série, ele passou a poder ir lá e assistir a série que ele queria na hora que ele queria (seja no netflix, seja nos canais convencionais, através de aparelhos/serviços como Apple TV, Roku etc.). Com essa mudança - que parece boba, mas é muito significativa - digamos que o interesse do espectador ficou mais "volúvel". O tempo de consumo - e já falamos sobre isso em outros posts - passou a ser disposto de forma diferente e a indústria, como um todo, entendeu que "reruns"(reprise de episódios) não faziam mais tanto sentido. Os anunciantes estavam atrás de se associar apenas com conteúdo fresco. Logo, o interessante (grosso modo) era não mais ter temporadas de 22/24 episodios dispostos em 6 meses de exibição e sim  diminuir o número de episódios de uma série para 10/13, que passassem em 3 meses, para que logo depois começasse outra série e por aí fosse.

Na superfície não há nada de ruim nisso. Ganha o espectador com mais conteúdo pra ver e até mesmo os roteiristas, certo? Afinal, tem mais programa pra você ser staffed. No entanto, a forma como os estúdios pagam os roteiristas apresenta um problema nesse modelo. Os roteiristas ganham por episódio e com essa diminuição da temporada, eles passaram a receber metade do que recebiam antes, sendo que não podem, no resto do ano, por motivo de contrato de exclusividade, trabalhar em outras séries.

Uma greve é muito ruim para todos os envolvidos. Os roteiristas, o estúdio, a equipe "below the line" (câmeras, figurinistas etc) e também para os espectadores. No cinema não há muitos danos, pois os projetos são montados com anos de distância - até hoje a greve de roteiristas mais longa durou 20 semanas - e, mais; com MUITOS scripts de buffer. Mas na TV, por conta do timing também, caso as Majors não cedam, simplesmente todas as séries, que logo mais entrariam em produção, terão suas exibições atrasadas. Programas ao vivo, como o SNL, que voltou a alcançar ótimos índices de audiência e tem sido muito comentado, seriam "desligados" imediatamente. Mesma coisa com os talk shows diários como o Tonight Show with Jimmy Fallon e o Late Show with Stephen Colbert, que entrariam em hiato indeterminado.

Com tudo isso dito, acho que foi importante o WGA se unir e votar a favor da greve; acho que agora o MPAA cede e concede. Afinal, ele pode e deve conceder. As Majors conseguem lucro recorde em cima de lucro recorde, e a pedida da WGA é tipo 0.X% do que um CEO de qualquer uma delas recebe de salário no ano, não tem como não apoiar o pleito. É uma correção de rumo que tem que ser feita em cima de algo bom e não algo ruim, ou seja, apenas uma questão de justiça mesmo.

Para os espectadores - e essa é a segunda parte que nos interessa, aqui de longe da indústria americana - dá até um alívio, porque vai dar pra recuperar o tempo perdido e ver as mil séries novas bacanas que sempre indicam e não temos tempo pra ver. Fora as diversas excelentes séries de catálogo que muitos podem não ter visto. Diferente do que tentam te fazer crer por aí: bom conteúdo de TV não nasceu com "The Sopranos".

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