BRAINSTORM: Máquina de Escrever

By Eduardo Albuquerque - 12/21/2017




O falecido avô da minha esposa tinha essa máquina de escrever Sterling que agora fica como decoração no nosso quarto. Acho que basta comprar fita para botá-la pra rodar; parece funcionar tranquilamente. De vez em quando, quando no ócio, brinco de digitar nela, porque o barulho e o teclar dela é muito gostoso. Muito diferente dos teclados não-mecânicos aos quais nos acostumamos.

Numa destas escapadas com a máquina, fiquei pensando como a mudança tecnológica mudou a escrita em si. Fiquei pensando que pesadelo seria tentar escrever um roteiro, ou um conto que seja, numa máquina de escrever. Sou de um tempo em que ainda dava pra usar máquina de escrever - o fiz algumas vezes com coisas de criança - porque computador ainda era algo "para poucos". Meu primeiro computador - um laptop Toshiba possante com um HD de gigantescos 2GB - foi adquirido só em 1998! Porém, o computador, aliado ao advento da internet, entrou de tal maneira no meu (no nosso, né?) dia-a-dia, que me acostumei a escrever digitalmente e, sei lá; não é que eu não consiga, mas teria uma dificuldade imensa de mudar meu mindset pra escrever analogicamente. Na máquina de escrever - se você não quiser ser o clichê de filmes onde o escritor amassa o papel e joga fora quando erra/muda de idéia - você tem que fazer um trabalho muito pesado de definição de idéia na cabeça antes de digitar. Isso para mim seria muito complicado: minha escrita é totalmente baseada em usar o delete, subindo e descendo as frases e editando a escrita ad nauseum antes de seguir em frente. Eu escrevo qualquer merda, porque é em cima desta merda que vou construir alguma coisa, afinando, cortando, trocando; na máquina de digitar isso não dá pra ser realizado com o mesmo efeito.

Não estou dizendo que a galera das antigas digitava e voilá: estava pronto o roteiro! Claro que eles amassavam os papéis em bolinhas, passavam liquid paper em palavras e re-digitavam e ainda tinham os segundos, terceiros, quartos tratamentos etc. Mas fato que, com tanto trabalho manual e cerebral, o Homem cansava e não fazia metade das revisões e edições que fazemos tão costumeiramente on the go por causa de toda a facilidade que o computador possibilita.

Minha conclusão é a de que, no geral, a escrita no computador fez com que surgissem obras melhores, menos engessadas. No entanto, a máquina de escrever, indubitavelmente, forjava melhores escritores, no sentido que requeria do escritor que ele estivesse mais "pronto", mais certo do que o que ele queria fazer, ao invés de dar a chance dele ir descobrindo no papel se ele tinha uma idéia clara na cabeça. Se é que isso faz algum sentido...

Geralmente o Brainstorm é uma estimulação de idéias, de premissas para que acenda uma centelha criativa no cérebro e te estimule a escrever. Mas o de hoje é mais uma estimulação de forma. Da escrita em si. Não necessariamente pra disso sair uma idéia - embora até possa acontecer; vai saber... - mas sim um exercício que creio poder melhorar nossa habilidade de escrever: você tem uma máquina de escrever funcionado por aí? Tente escrever alguma coisa direto nela, como a velha guarda fazia!

Depois me diz aqui nos comentários (i) o que achou do processo, (ii) do resultado final e (iii) onde você achou fita de tinta pra eu fazer a experiência também!

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