Todas as sextas-feiras eu respondo perguntas enviadas pelos leitores do blog. Se quiser me mandar uma, acesse este link e aperte enviar (ou tente nos comentários!).
Vamos ao desta semana!
Fala, Muniz!
Segunda semana seguida com pergunta sua; mais uma e você pede música!
Falando em música...
Os roteiristas participamos da trilha sonora, diegética ou não, somente quando a inserção da música tem motivação narrativa. Ou seja; quando uma música específica OU é parte da trama diegética de alguma forma OU é perfeitamente auxiliar ao storytelling.
Vamos exemplificar pra ficar mais fácil. Manja o ótimo "Silver lining's playbook" (O lado bom da vida, em português)? Nele, o personagem do Bradley Cooper, toda vez que ouve o clássico "My Cherie Amour" de Stevie Wonder, tem surtos psicóticos por conta de acontecimentos passados da sua vida. Esta é uma escolha de roteiro, de certo, e a escolha dos momentos onde a música entra e influi na trama - diegéticamente ou não - também. Faz parte da história a música, então ela tem que ser "chamada" pelo roteirista, que deve ser específico de qual música e em qual momento ela se insere para que entendamos o "clima" desta influência da música. Efetuando todas estas escolhas, o efeito narrativo é assombroso, pois, neste caso, é uma música linda de amor somada a uma reação tensa remetendo a traição. É pensado. Não pode ser qualquer música. O efeito não seria o mesmo se fosse "Who let the dogs out", concorda?
Mas esse é um exemplo até grande, que compõe muito da história. Às vezes é a mera escolha de uma música específica cuja letra faça algum "comentário" do que rola na tela. TV faz muito isso. Uma clipagem reunindo desfechos para vários personagens com uma música que dialogue com estas histórias. No meu filme, "A esperança é a última que morre" (03 de Setembro nos cinemas!), há, por exemplo, um momento onde a Banda de Fanfarra da Polícia está ensaiando uma música. É a introdução do núcleo policial da trama. A escolha da música que eles tocam diz muito sobre eles. Nesta cena, o Major Leandro (vivido pelo excelente Thelmo Fernandes), líder da banda (e da polícia) até comenta sobre a música, rola umas piadinhas, mas mesmo que não houvesse essa interação, o apontamento de uma música por parte do roteirista já seria importante e justificado, pois, considerando que no mundo diegético esta música foi escolhida pelos personagens, ela diz muito sobre eles e você, como roteirista, não pode se omitir nestes momentos.* Você tem que dar todas as direções pra que todo mundo, em cima do que você iniciou, faça seu trabalho. Você não necessariamente escolhe o ator, mas descreve o tipo físico do personagem para o Casting ser feito. Você não escolhe as roupas do personagem, mas descreve o estilo dele para que a(o) Figurinista componha o guarda-roupa. E por aí vai...
Se não for fundamental para o storytelling, o roteirista não tem nada com isso. Você não escreve uma piada e no build up dela coloca no roteiro "música faz fuen fon fonnnn" pra marcar a graça. Isso é trabalho do diretor que, junto ao trilheiro faz marcações no filme montado pra ver onde podem auxiliar na construção de diversos sentimentos que o filme quer convencionar. Uma boa aplicação de trilha sonora incidental (original music) pode fazer toda a diferença no filme, mas é função do diretor, responsável por imprimir nosso imaginário em uma obra audiovisual.
Obrigado pela oportunidade de escrever a palavra que mais curto do cinema: diegético!
Vamos ao desta semana!
A pergunta é sobre trilha sonora. Como o roteirista participa da elaboração da mesma, escolha do repertório de fundo, melodia adequada para cada cena, etc.
Atenciosamente,
Carlos Muniz
Fala, Muniz!
Segunda semana seguida com pergunta sua; mais uma e você pede música!
Falando em música...
Os roteiristas participamos da trilha sonora, diegética ou não, somente quando a inserção da música tem motivação narrativa. Ou seja; quando uma música específica OU é parte da trama diegética de alguma forma OU é perfeitamente auxiliar ao storytelling.
Vamos exemplificar pra ficar mais fácil. Manja o ótimo "Silver lining's playbook" (O lado bom da vida, em português)? Nele, o personagem do Bradley Cooper, toda vez que ouve o clássico "My Cherie Amour" de Stevie Wonder, tem surtos psicóticos por conta de acontecimentos passados da sua vida. Esta é uma escolha de roteiro, de certo, e a escolha dos momentos onde a música entra e influi na trama - diegéticamente ou não - também. Faz parte da história a música, então ela tem que ser "chamada" pelo roteirista, que deve ser específico de qual música e em qual momento ela se insere para que entendamos o "clima" desta influência da música. Efetuando todas estas escolhas, o efeito narrativo é assombroso, pois, neste caso, é uma música linda de amor somada a uma reação tensa remetendo a traição. É pensado. Não pode ser qualquer música. O efeito não seria o mesmo se fosse "Who let the dogs out", concorda?
Mas esse é um exemplo até grande, que compõe muito da história. Às vezes é a mera escolha de uma música específica cuja letra faça algum "comentário" do que rola na tela. TV faz muito isso. Uma clipagem reunindo desfechos para vários personagens com uma música que dialogue com estas histórias. No meu filme, "A esperança é a última que morre" (03 de Setembro nos cinemas!), há, por exemplo, um momento onde a Banda de Fanfarra da Polícia está ensaiando uma música. É a introdução do núcleo policial da trama. A escolha da música que eles tocam diz muito sobre eles. Nesta cena, o Major Leandro (vivido pelo excelente Thelmo Fernandes), líder da banda (e da polícia) até comenta sobre a música, rola umas piadinhas, mas mesmo que não houvesse essa interação, o apontamento de uma música por parte do roteirista já seria importante e justificado, pois, considerando que no mundo diegético esta música foi escolhida pelos personagens, ela diz muito sobre eles e você, como roteirista, não pode se omitir nestes momentos.* Você tem que dar todas as direções pra que todo mundo, em cima do que você iniciou, faça seu trabalho. Você não necessariamente escolhe o ator, mas descreve o tipo físico do personagem para o Casting ser feito. Você não escolhe as roupas do personagem, mas descreve o estilo dele para que a(o) Figurinista componha o guarda-roupa. E por aí vai...
Se não for fundamental para o storytelling, o roteirista não tem nada com isso. Você não escreve uma piada e no build up dela coloca no roteiro "música faz fuen fon fonnnn" pra marcar a graça. Isso é trabalho do diretor que, junto ao trilheiro faz marcações no filme montado pra ver onde podem auxiliar na construção de diversos sentimentos que o filme quer convencionar. Uma boa aplicação de trilha sonora incidental (original music) pode fazer toda a diferença no filme, mas é função do diretor, responsável por imprimir nosso imaginário em uma obra audiovisual.
Obrigado pela oportunidade de escrever a palavra que mais curto do cinema: diegético!
Fui convidado para realizar uma palestra no "Dia do Cinema", um evento semestral do curso de Cinema da Faculdade Estácio de Sá (Rio de Janeiro) que conta com diversas palestras, workshops e outras atividades relacionadas ao mundo cinematográfico.
Realizado pelo NUCINE (Núcleo de Cinema da Estácio), o evento dura o dia todo e traz uma programação bem eclética, com temas que vão de figurino até dublagem, além da presença de nomes de peso como Mario Gomes e o grande Cavi Borges.
O evento é aberto ao público, então deixo aqui o convite pra quem quiser/puder comparecer pra ver ao vivo este que vos escreve. Entitulada "Roteiristas: o que a faculdade não vai te ensinar", minha palestra vai ser bem descontraída e focada em algumas coisas que peguei com a vivência no mercado. Não devo focar em nada de técnica de escrita e sim no aspecto "carreira", mas, como no final abrirei pra perguntas, pode ficar à vontade pra perguntar sobre este tema também. Só ficarei muito magoado se no final você não vier falar comigo e disser "oi! eu leio a Sala dos Roteiristas!"
DIA DO CINEMA DA FACULDADE ESTÁCIO DE SÁ
Palestra "Roteiristas: o que a faculdade não vai te ensinar"
Onde: Avenida das Américas, 4.200/Bloco 11/Sala 134. Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.
Quando: Quarta-feira, dia 03 às 10h00
Esse amigo-do-blog Jeferson Rodrigues... ele dá um trabalhão.
Sempre quando vou escrever alguma resposta a um comentário dele fico pensando "maldito! isso podia ser um post facilmente". É o que acontece quando você tem leitores interessantes e interessados, que apontam sempre coisas pertinentes e diretas, não besteiras que nem valem o nosso tempo... Que bom!
Semana passada enquanto conversávamos - aliás, tem uma galera aí que entra no site e fica só espiando, sem participar. Isso aqui não é BBB não! Aparece aí nos comentários também! - sobre diálogos expositivos, a conversa foi enveredando para um tópico que vejo ser preocupação de muita gente: escrever direções de câmera no seu roteiro.
Achei melhor ao invés de responder nos comentários, colocar em forma de post pra não ficar perdido por aí, afinal é um assunto que merece um destaque individual. Então lá vai:
Contrário à maioria da galera, eu acho que você tem que escrever tudo que seja absolutamente necessário para o entendimento da história e da leitura, incluindo, se necessário, direção de câmera. Mas só realmente o essencial.
Dizer
"ANGLE ON: vinda do teto, uma GOTA DE SANGUE cai no chão. Ficamos nela enquanto o DETETIVE passa por perto sem percebê-la. A tensão cresce enquanto ele vai embora sem notar esta grande evidência de que há algo errado nesta casa!"é dirigir o leitor/espectador para a construção dramática necessária à aquela história. O detetive não viu algo mas nós, leitores e futuramente pláteia, temos que ver e perceber que ele não viu, logo, precisamos chamar atenção do diretor pra isso e condicionar esse plano sim. Por que sem ele, não vai rolar o que estamos tentando convencionar. Não ouça os radicais; ainda assim, o diretor vai poder escolher o enquadramento, a mise en scene etc. Esta técnicalidade é necessária para entendermos, afinal um roteiro não é uma peça de fim literário e sim técnico. Ele só existe para direcionar a equipe toda a fazer uma obra audiovisual.
Agora... Dizer
"ANGLE ON: um plano fechado que mostra em SLOW MOTION uma gota de sangue caindo bem ao lado da bota do DETETIVE, que não nota. Ele vai saindo dali mas, antes, olha para dentro da sala, quando pulamos para um WIDE SHOT do apartamento vazio, com as sombras da persiana desenhando o chão. A música incidental sobe enquanto ele sai sem notar a gota, que vemos num PLANO DETALHE."é decupar uma cena e este não é o seu trabalho. O diretor pode preferir outro encadeamento e enquadramento de planos pra contar a mesma parada. O que você tem que convir (e ele seguir) é o básico: caiu uma gota vinda do teto e o cara não percebeu. É isso. Mas não apenas isso. Some à informação básica o clima através do qual isso deve ser sentido pela platéia. E isso se faz como? Não através de chamadas de câmera etc. mas através - aqui sim - do seu poder de literatura, escrevendo com a adequada escolha de palavras, clima e ritmo para que a LEITURA passe o que você quer.
Enfim, as pessoas se perdem muito nestas coisas de "o que pode/o que não pode". Eu acho que é mais "o que deve/o que não deve". Claro que o roteirista pode "dirigir" a cena. Ele deve, até. Só que sua direção deve ser o mínimo técnica possível. Tem que lembrar que ele direciona LEITOR e não ator-câmera. Veja: o Roteirista é o primeiro a contar a história e o faz direcionando o leitor. O Diretor é o segundo a contar a história e o faz direcionando ator+câmera. O Editor é o terceiro a contar a história e o faz direcionando a montagem dos cortes. Mas tudo que fazem é com um intuito apenas (e é o mesmo pra todos): CONTAR A HISTÓRIA. Então use o que for necessário para isso. Mas lembre que vc não dirige câmera e sim leitores, logo ficar chamando enquadramento (direção) e transição (edição) o tempo todo não vai fazer sentido, vai tirar teu leitor daquela magia. Seja econômico e use só quando não houver outra maneira e a sua intenção só consiga ganhar vida com esta interferência específica. Se mesmo com esta noção você se vir ainda muito atrelado a direções de câmera etc nos seus trabalhos, talvez seja hora de pular pro outro lado da... máquina de escrever?
Todas as sextas-feiras eu respondo perguntas enviadas pelos leitores do blog. Se quiser me mandar uma, acesse este link e aperte enviar (ou tente nos comentários!).
Vamos ao desta semana!
Fala, Muniz!
Olha você aqui de novo!
Antes de qualquer coisa, tem algumas coisas a serem diferenciadas e explicadas. Patrocínio aqui no Brasil é feito via a famosa lei Rouanet, na qual a empresa aplica 4% do seu imposto de renda em um projeto cultural e mostra sua marca no início do filme. Somada à editais culturais de financiadores estatais como o BNDES, orgãos culturais regionais (secretária de cultura etc.) e mecanismos como os fundos setoriais, esta é a maneira como são feitos a maioria dos filmes de longa-metragem de mercado aqui no Brasil. O que não deve ser confundido com Merchandising, que é qualquer intervenção de marca DENTRO do filme. Cada marca que figura em cena significa $$$ extra em troca daquela publicidade; sendo ela um $$$ que a produção economiza de ter que gastar com algum produto/objeto caro (uma permuta), ou uma menção ao produto/interação com o produto por parte dos personagens, ou a simples aparição (como no caso da Sony e Arnoldão) da marca/produto na tela.
Como um roteirista lida? Bom, cada um é cada um, mas eu, pelo menos, lido muito bem. Quanto ao patrocínio não faz nem sentido ter qualquer outra relação: sem ele não tem como fazer filme. O método como ele é feito, uma discussão sobre o mercado cinematográfico andar com as próprias pernas, é outra história. O fato é que, nenhuma produtora tem dinheiro para bancar sozinha um longa-metragem, que é muito caro. Então, ela precisa se associar a uma ou mais marcas que tenha(m) dinheiro e vislumbre(m) no filme uma oportunidade, seja ela comercial ou não. Assim todo filme é um produto comercial. Pensar de outra maneira é infantil e inútil.
E quanto ao Merchandising, ele significa mais dinheiro para o filme e mais dinheiro no filme significa maior production value, então I'm all in! Tem gente que não gosta, que considera a presença da marca ruim para a sua história, mas eu, pelo contrário, acho que marcas conferem realismo para o filme. Quando você vê o personagem bebendo uma "Zepsi" você imediatamente tira o espectador da história, ele percebe que tá vendo uma farsa. Você não quer isso. Quer ele engajado. Então, sou mais ver ele bebendo a latinha azul... ou vermelha! Quem pagar mais! Especialmente quando a marca não está apenas no fundo do quadro, quando o personagem interage de alguma forma com ela, aí que eu acho legal. Vejo como um desafio inserí-la de forma natural e divertida, agregando à sua história. Muitas vezes eu mesmo que sugiro alguma cena com marca, pois além de ajudar em algo, sei que pode trazer dinheiro para ajudar o filme a ser feito e bem sucedido. Claro, falando assim parece fácil, uma relação perfeita. Não é. Nem toda marca tem senso de humor (ou senso de entretenimento, sei lá) e quer sua inserção perfeita, sem qualquer risco para ela. A dramaturgia (comédia ou não) é movimentada através de conflitos, se nada der errado (ou parecer que vai dar errado) não dá vontade de assistir, então às vezes complica quando, mesmo que não seja nada relacionado à marca, o personagem sofre algo na cena onde ela aparece inserida e aí o departamento de marketing se sente desconfortável e pede mudanças. É nesse momento que você tem que ter produtores parceiros, que entendam que o roteiro também não pode ficar totalmente em segundo plano para a publicidade e defendam junto com você um meio do caminho entre marca e filme. Queremos o dinheiro, mas não sob qualquer condição.
Espero que tenha dando uma luz , afinal:
Este post é trazido pra você pela Light! 110 anos com você
Vamos ao desta semana!
Como se lida com patrocínio dentro do filme? Exemplo: Arnoldão em T2 passa por um prédio com o letreiro SONY enorme luminoso.
Carlos Muniz
Fala, Muniz!
Olha você aqui de novo!
Antes de qualquer coisa, tem algumas coisas a serem diferenciadas e explicadas. Patrocínio aqui no Brasil é feito via a famosa lei Rouanet, na qual a empresa aplica 4% do seu imposto de renda em um projeto cultural e mostra sua marca no início do filme. Somada à editais culturais de financiadores estatais como o BNDES, orgãos culturais regionais (secretária de cultura etc.) e mecanismos como os fundos setoriais, esta é a maneira como são feitos a maioria dos filmes de longa-metragem de mercado aqui no Brasil. O que não deve ser confundido com Merchandising, que é qualquer intervenção de marca DENTRO do filme. Cada marca que figura em cena significa $$$ extra em troca daquela publicidade; sendo ela um $$$ que a produção economiza de ter que gastar com algum produto/objeto caro (uma permuta), ou uma menção ao produto/interação com o produto por parte dos personagens, ou a simples aparição (como no caso da Sony e Arnoldão) da marca/produto na tela.
Como um roteirista lida? Bom, cada um é cada um, mas eu, pelo menos, lido muito bem. Quanto ao patrocínio não faz nem sentido ter qualquer outra relação: sem ele não tem como fazer filme. O método como ele é feito, uma discussão sobre o mercado cinematográfico andar com as próprias pernas, é outra história. O fato é que, nenhuma produtora tem dinheiro para bancar sozinha um longa-metragem, que é muito caro. Então, ela precisa se associar a uma ou mais marcas que tenha(m) dinheiro e vislumbre(m) no filme uma oportunidade, seja ela comercial ou não. Assim todo filme é um produto comercial. Pensar de outra maneira é infantil e inútil.
E quanto ao Merchandising, ele significa mais dinheiro para o filme e mais dinheiro no filme significa maior production value, então I'm all in! Tem gente que não gosta, que considera a presença da marca ruim para a sua história, mas eu, pelo contrário, acho que marcas conferem realismo para o filme. Quando você vê o personagem bebendo uma "Zepsi" você imediatamente tira o espectador da história, ele percebe que tá vendo uma farsa. Você não quer isso. Quer ele engajado. Então, sou mais ver ele bebendo a latinha azul... ou vermelha! Quem pagar mais! Especialmente quando a marca não está apenas no fundo do quadro, quando o personagem interage de alguma forma com ela, aí que eu acho legal. Vejo como um desafio inserí-la de forma natural e divertida, agregando à sua história. Muitas vezes eu mesmo que sugiro alguma cena com marca, pois além de ajudar em algo, sei que pode trazer dinheiro para ajudar o filme a ser feito e bem sucedido. Claro, falando assim parece fácil, uma relação perfeita. Não é. Nem toda marca tem senso de humor (ou senso de entretenimento, sei lá) e quer sua inserção perfeita, sem qualquer risco para ela. A dramaturgia (comédia ou não) é movimentada através de conflitos, se nada der errado (ou parecer que vai dar errado) não dá vontade de assistir, então às vezes complica quando, mesmo que não seja nada relacionado à marca, o personagem sofre algo na cena onde ela aparece inserida e aí o departamento de marketing se sente desconfortável e pede mudanças. É nesse momento que você tem que ter produtores parceiros, que entendam que o roteiro também não pode ficar totalmente em segundo plano para a publicidade e defendam junto com você um meio do caminho entre marca e filme. Queremos o dinheiro, mas não sob qualquer condição.
Espero que tenha dando uma luz , afinal:
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Exceto em musicais, onde é quase requerido uma "what I'm feeling" song, não tem nada mais enfadonho do que uma cena onde os personagens verbalizam o que sentem. Aquele clichê do personagem principal deitado no divã de um psicólogo que só está ali para esta função... Blergh. Sou sempre partidário de, quando possível, mostrar o que o personagem sente através de ações física, usando diálogo da forma menos literal possível, quase como "o que pode ser não-dito que convenha este sentimento?".
No entanto, especialmente para nós, que precisamos ter controle absoluto de todos os aspectos da história, é quase como se precisássemos escrever para descobrir 100% o que o personagem de fato está sentido. Nos ajuda verbalizar o que o personagem sente, não é verdade? Quando a gente fecha os olhos e imagina a cena e o diálogo vai tomando forma no papel, uma palavra ou outra acaba aparecendo e, em uma aproximada análise, estas palavras acabam revelando algum aspecto interessante, profundo, definidor de como aquele personagem realmente se sente. Tipo Jorge Amado que, reza a lenda, ia escrevendo e se pegava impressionado com Gabriela, inclusive falando em voz alta "Sua danadinha!".
Então, não condeno que se escreva propositalmente uma cena onde seu personagem fala exatamente o que pensa - pode ser até no psicólogo ou no confessionário - somente para te auxiliar. Escrever com o compromisso de que ela não vai entrar no roteiro. Deixe-a separada e analise bem o que tem de oculto no discurso que você escreveu. Coloque-se no lugar do seu personagem e imagine os piores cenários para quem está nessa situação e, aí sim, mostre através de ações o que ele sente. Um personagem que se sente empacado e sem futuro? Nada dele lamentando que se sente um fracasso e se dedicou muito à algo que não deu fruto, só tomou seu tempo e agora ele percebe o quanto perdeu e tem medo do futuro, pois não construiu amizades fortes e não sabe mais se relacionar com pessoas bla bla bla. Uma cena onde conhece/está na presença de um prodígio é muito melhor, não? Seu sobrinho vencendo uma competição de tênis ou qualquer coisa que parece pequena, mas quem está nessa situação acha que tudo é um sinal irônico contra si. O personagem se sente mal porque não consegue se sentir 100% feliz pelo sobrinho e quando o mesmo vem, orgulhoso, mostrar sua medalha ele manda um "yeah, mas... não se apega muito, hein? Nem sempre se vence" e o sobrinho dá um sorriso murcho meio "what a dick" e sai deixando o próprio personagem pensando "why am I such a dick? por que não consigo me sentir 100% feliz por ele?". Ou então, se servir melhor o seu personagem, ele faz o contrário disso? Fala tudo que ele não sente de verdade, quase que sem força convindo o que ele gostaria que fosse, mas é algo que claramente ele não sente (?) "parabéns! e isso é só o começo! você tem todo o futuro pela frente. Agora é só vitória. Se concentra nos treinos, se dedica MUITO! Tudo que você gastar com isso vai valer a pena no final." Ou até mesmo - de novo, se fizer sentido com o personagem e o momento da história - curtir um simples momento de olhos cheios d'água ao ver o menino recebendo medalha. Um mix de orgulho e inveja que só o faz sentir pior. Powerful.
Se você vir algo meu e identificar alguma cena onde o personagem fala literalmente o que sente... sorry. Falar é fácil, fazer é difícil (ha!), mas pode ter certeza que em algum lugar, escondido nas pastas do meu computador, tem um arquivo com uma cena ainda mais "verbalizada" do que essa, a qual escrevi apenas para me ajudar a entender melhor o personagem e escrever a cena definitiva onde tento mostrar através de ações o que ele sente. Encontre as cenas verbalizadas e gaste um tempo nela pensando "como esta cena pode ser agida(!) e não falada?"
No último dia 12, terça-feira, fui convidado pela direção da ESPM Rio para comparecer ao evento de lançamento do curso de Graduação em Cinema e Audiovisual da instituição. Realizado no "campus" da escola e exclusivo para a imprensa, o evento foi aberto por Flavia Flamínio (diretora geral da ESPM) e Eduardo Ariel (coordenador do curso de Cinema e Audiovisual) com uma apresentação do projeto acadêmico do curso e, depois, seguiu para uma mesa de debates sobre o Rio e o mercado audiovisual e suas perspectivas, moderado por Pedro Curi (ESPM) com a presença de Mariana Ribas (diretora da Rio Filme), Pedro Butcher (colaborador da Filme B), Koca Machado (do Grupo Sal) e Hadija Chalupe (professora da ESPM).
Minha impressão inicial sobre o curso foi confirmada: trata-se de um curso voltado ao cinema e audiovisual como mercado integrante de uma cidade-marco da economia criativa no Brasil. Não será um curso que se encerra no cinema como atividade artística e sim atividade empreendedora. E isso é ótimo e faz muito sentido; faltava esta formação mais pragmática por aqui, afinal o audiovisual brasileiro - que contribui com mais de R$19 bilhões por ano para a economia do país e é pilar importante da Indústria Criativa, cujo PIB responde a 2,7% do PIB nacional - tem o Rio de Janeiro como sua indubitável capital.
Apesar de estar claro que o curso nasce de uma análise de necessidade de mercado, a ESPM já vinha de antes estendendo seus tentáculos e tocando de uma forma ou outra o audiovisual com sua habilitação em Animação dentro do já existente curso de Design, com a pós-graduação em Gestão de Entretenimento e em projetos como a Escola de Séries em parceria com o SEBRAE - fora as intercessões naturais de jornalismo e publicidade e propaganda. Portanto, fica claro que não se trata de uma "aventura" acadêmica ou modismo; a ESPM e seu curso de cinema e audiovisual parecem bem estruturados o bastante para atuar perenemente como um importante player na nossa indústria. Com isso, chego à conclusão que trata-se do primeiro curso "moderno" de cinema do Rio de Janeiro. Legal.
Fiquei pensando se um vestibulando que pretende ser roteirista não poderia se beneficiar de fazer um curso com esta pegada, haja visto que, de toda forma, nenhum outro curso de universidade no Rio é totalmente direcionado ao roteiro. Se a formação não vai ser "completa" do lado artístico-técnico, por que não fazer um curso que será mais completo na outra ponta, a empreendedora? Não sei. O tempo e a força das cadeiras de Roteiro da grade curricular da ESPM dirão. Outra opção seria complementar com cursos técnicos renomados como os da Darcy Ribeiro e a AIC, que mesmo muitos alunos da PUC, Estácio e UFF acabam fazendo. Mas, como tempo é dinheiro e ambos são escassos para a maioria das pessoas, um curso 100% recomendado para roteiristas (Cinema com Habilitação em Roteiro, não? Não?) ainda é sonho.
De toda forma, ainda uma boa opção para roteiristas e excelente para produtores e gestores de audiovisual. As inscrições para o primeiro vestibular já estão abertas. Mete bronca, futuro colega de profissão/meio! Nos vemos no mercado!
Sabe aquela regra sempre presente em filmes de viagem no tempo? - "Lá vem o Dudu...", você pensou. Mas calma, não é mais do mesmo! - Aquela regra que diz que você não pode mexer em nada do passado, pois senão, quando voltar ao "futuro", tudo será diferente? Tipo "Marty McFly não existirá se ele influir muito e Loraine se apaixonar por ele e não por George"?
Mas e se você partir exatamente DESTA premissa pra construir sua história? Imaginar como seria o presente se algo, que poderia acontecer no passado e por algum motivo não aconteceu, acontecesse.
E se Carlos Lacerda vencesse a discussão e o Maracanã fosse construído em Jacarepaguá? O que mudaria não só no landscape, mas na organização da cidade e seus habitantes? E se os Judeus holandeses não tivessem sido expulsos do Nordeste e Nova York fosse aqui? E se o Sul vencesse o Norte na Guerra Civil Americana? E se algum destes planos urbanísticos do Rio de Janeiro nunca realizados tivesse saído do papel?
Como você pode ver nesta extensa e sensacional série de artigos chamada "Laws that shaped LA" - através da qual cheguei à idéia deste Brainstorm - você pode viajar em pequenas decisões que, se fossem diferentes, mudariam tudo! Não sei se a boa é o filme ser "sobre isso", mas com certeza "à partir disso". Você pintar um presente utópico (ou distópico; você que manda) e trazer instantaneamente um frescor à idéia mexendo com a noção de realidade histórica do espectador, que se interessará por viajar junto contigo. O filme "Interstellar", de Christopher e Jonathan Nolan, por exemplo, se passa no futuro, mas uma das coisas mais legais que eles fazem é imaginar uma situação (escassez de alimentos) e explicar como se chegou à ela. Quando o filme propôs aquela reflexão "fudemos o meio-ambiente, achávamos que tudo tinha estoque eterno", imediatamente fui sugado pro drama presente. O filme não se debruça sobre isso, não aprofunda nos porquês - é sobre amor no espaço-tempo, esperança, física quântica e um pouco de sobrevivência - mas a pequena explicaçãozinha de como se chegou a aquilo, tornou tudo mais interessante e profundo.
De repente este pode ser um "pulo do gato" pra alguma história sua que está meio travada. Será que ela não faria mais sentido ou seria potencializada se o mundo no qual ela estivesse inserida fosse diferente? E isso se desse por conta de algo que todo mundo sabe que é x, mas poderia ter sido y?
Muitas vezes vemos nos créditos de um filme mais de um nome embaixo de "Roteiro" e isso não significa que aquelas pessoas escreveram o filme a quatro mãos. Se só há um nome, pode ter certeza que só aquela pessoa trabalhou no roteiro e/ou que uma porcentagem significativa (98%?) do roteiro final é de autoria dela. Mas havendo mais de um nome, OU estes nomes escreveram a quatro mãos - o que chamamos de "writing team" - OU estes nomes trabalharam separadamente no roteiro, cada um fazendo individualmente alguma quantidade de Tratamentos e tendo parte considerável deste trabalho sobrevivido até o roteiro final.
Nos Estados Unidos não é permitido mais de 2 roteiristas (sendo que um "writing team" são 2 roteiristas que trabalham JUNTOS, a quatro mãos, ou seja, conta como UM roteirista), exceto em casos muito especiais, mas limitado, de toda forma, a 3 nomes no crédito. Então você pode ver, por exemplo, algo tipo:
Screenplay by:
Fulano & Cicrano and Beltrano
Onde "&" mostra um time de roteirista e "AND" o outro roteirista. Quando é mais simples, sem "Writing team", com dois roteiristas que trabalharam individualmente em algum momento do roteiro e contribuíram o suficiente pra merecer autoria, pode só ter um em cima do outro. A regra para a ordem destes nomes também é tipificada e tem algumas variáveis que não vem ao caso.
Mas aqui no Brasil, como já falei milhões de vezes, não tem nenhuma dessas regras. É tudo negociação das partes. Estamos cada um por nós mesmos e o que as pessoas conseguem em seus contratos é o que fica, infelizmente. Então, é possível você ver o nome de vários alguéns embaixo de "roteiro" - me vem à cabeça o filme "Diabo a quatro", dirigido pela Alice de Andrade, que tinha absurdos SETE roteiristas! - e estes alguéns terem trabalhado em apenas 1 tratamento, sendo que quase nada que eles "criaram" sobreviveu ao roteiro final. Acontece.
E por que acontece?
Bom, talvez pela des-centralização do nosso mercado. Nos EUA temos grandes estúdios (FOX, Warner Bros, Universal, Disney, Paramount...) que constituem o grosso do mercado e possuem acordo com o WGA (Writer's guild of America, o sindicato dos roteiristas) para que o WGA faça a arbitração de quem é/são os autores principais daquela obra, para, com isso, determinar também os royalties residuais daquela peça, uma vez que ela comece a fazer sua carreira. Já aqui no Brasil não temos estúdios que dominam o mercado. Temos produtoras com volume pouco relevante e pouca solidez; muito mais complicado de firmar um acordo bilateral que não seja "furado". Então, o doido é que, pela nossa (roteiristas) pouca organização e união, pode acontecer de, num filme onde há dois roteiristas que trabalharam individualmente na obra, termos um roteirista com menos autoridade "moral" sobre aquele texto, recebendo mais royalties autorais do roteiro, pois teve poder de barganha melhor na negociação. Pode acontecer também da pessoa,mesmo merecendo, nem receber royalties! Simplesmente porque a Produtora não concedeu e o roteirista, querendo pegar o trabalho, aceitou.
Royalties deveriam ser tabelados; fixos e não negociáveis. Automático: "o filme feito à partir do seu texto fez X? Então você tem direito a % de X". E ele, que escreveu 30% disso? Leva 30% de % de X. É no cachê que a melhor negociação e o currículo de mais peso devem ser mais valorizados, acredito. A homem-hora é mais cara devido ao peso que seu nome/carreira já carregam, mas a contribuição autoral à obra não necessariamente. Só se provado. Para mim, a autoria e seus direitos conexos deveriam ser pré-estabelecidos em sua porcentagem e definidos por meritocracia de forma independente (arbitração criteriosa de um sindicato), sob pena de desvalorizar a essência do trabalho criativo dos roteiristas.
Enquanto não há uma definição de nada em conjunto, só posso recomendar que você lute pelo máximo de destaque que você consiga, ou melhor, que lhe seja justo ao término do projeto. O outro roteirista é seu amigo, parceiro e não adversário. É delicado e difícil, mas se conseguirem se conversar e trocar uma bola sobre como proceder; melhor. Afinal, querendo ou não, a possibilidade de seus nomes estarem lado a lado eternamente no filme é grande. Tratem-se bem e de forma justa. E quando escrever como "writing team" negociar junto, um pacote, que seja dividido entre os dois irmamente, afinal, são duas pessoas, mas constituem um só "objeto", um time.
Expliquei por alto os documentos pelos quais você passa na hora de escrever um roteiro de longa-metragem, mas na parte final, o Tratamento, a pincelada foi especialmente branda e isso se deu pois, na verdade, tem muita coisa que você pode fazer nesta etapa. Cada um tem os seus segredos e as suas manias, eis uma das coisa que gosto de fazer:
Na hora de reler o tratamento, especialmente os iniciais, eu faço um truque que é trabalhoso, mas vale a pena. Eu tapo o nome dos personagens e leio a cena. Se eu não conseguir reconhecer quem fala o quê, é bom eu retrabalhar aquela cena.
Diálogos e vozes são coisas muito importantes. Todo mundo tem seu jeito próprio de se expressar e você, como roteirista, tem que ter extra cuidado para que não fique todo mundo falando do mesmo jeito, ou pior, falando do seu jeito.
Você pode fazer do jeito trabalhoso (e aí são dois: tapando os nomes no arquivo e depois com papel/caneta no papel) ou do jeito mambembe, tapando os nomes com os dedos as you go. Faz como for melhor pra você, mas o processo é bom e de boa serventia!
À partir do segundo semestre deste ano a ESPM - Escola Superior de Propaganda e Marketing do Rio de Janeiro vai oferecer curso de graduação em Cinema e Audiovisual e isso é uma excelente notícia pra todo mundo que vive e gosta desta área! Ainda mais por ser a ESPM, uma instituição séria, que com certeza vai entrar para contribuir e somar na formação de bons futuros profissionais.
Dando uma olhada na grade curricular vejo que o foco da formação é a área de produção, no entanto, muito mais bem estruturada (ou exclusivamente focada) do que em outras excelentes faculdades que também tem um bom lastro de formação voltado a produção, como a PUC-Rio e a Estácio. Achei muito legal e necessário (sem contar que super coerente com o "espírito"/marca ESPM) matérias como "Direitos Autorais, Patrocínios e Contratos", "Economia e Política do Cinema e Audiovisual" e "Distribuição e Exibição Cinematográfica".
O curso claramente não é recomendável para quem deseja ser Roteirista. Sua única cadeira cristalinamente de roteiro de cinema (tem umas outras que parecem ser ciclo básico de "escrita" em geral) possui apenas 2 créditos, ou seja, só pra dar um cheiro, uma base pro produtor. Meio tipo gerente que tem que passar rapidamente por todas as posições pra entender todos os processos da empresa na pele. Mas isso é zero problema, pelo contrário, o vital é termos sólidas instituições como esta buscando sempre dispôr o conhecimento de acordo com sua vibe educacional. O ruim é toda faculdade ser igual a outra. Temos que ter específicas pra mercado, específicas para "arte" e abrangentes à ambas as áreas. Temos que ter academia para algumas áreas que requerem tempo e discussão e cursos técnicos fortes para outras posições que demandam mais prática e não tanta discussão.
Então longa vida e muita sorte à ESPM! Esperemos boas coisas vindas de lá! Só teremos a ganhar.
O amigo-do-blog Jefferson Rodrigues pediu outro dia nos comentários deste post para eu falar um pouco sobre comédia e o meu approach sobre ela. É até um assunto que, há tempos, gostaria de abordar, então achei melhor fazer em formato de post e não apenas respondendo o comentário, pois vai ser uma filosofada grande e, espero eu, bacana demais para não ter um destaque legal.
"O que é a comédia", "o que é engraçado" ou "como posso ser engraçado" são perguntas que eu e todos os escritores (de comédia ou não) vamos passar a vida inteira tentando responder e dificilmente conseguiremos fazê-lo na totalidade. A comédia não é matemática exata - se fosse alguém já tinha escrito uma equação definitiva e ganhado muito dinheiro com isso - mas a comédia possui sim matemática dentro dela. Tenho pensado muito ao longo dos anos nesta equação e suas variáveis e algumas coisas tenho achado verdadeiras e recorrentes.
A primeira noção a qual cheguei - não é conclusão, estou sempre aberto a rever minhas idéias - é que a comédia narrativa (piadas, roteiros, histórias...) é igual a tragédia + tempo. Tem sempre um oprimido, algo ou alguém que sofre/é zoado. Uma interação onde todos se dão bem e ninguém é humilhado não é cômica. Só o é se você estiver querendo exatamente apontar e exacerbar isso, essa chapa branquice/bondade inumana. E mesmo assim: só significa que você escolheu esse tipo de gente "canadense" pra ser the butt of the joke. Sempre alguém leva a pior na comédia, nunca vi um exemplo onde algo engraçado não trazia conflito entre duas coisas e colocava algo ou alguém por/pra baixo; nem que essa pessoa fosse a própria pessoa que conta a piada (humor auto-depreciativo). Somos escrotos, queremos ver alguém se fudendo. Ou seja; comédia é igual a dor. A "tragédia", nosso primeiro fator da equação, é certa. Sempre. O "tempo" é apenas o fator que vai determinar se a comédia é eficiente (faz rir) ou não, pois, já que sempre tem algo/alguém que leva a pior, temos que ter a sensibilidade de saber se "é cedo demais" pra brincar com aquilo, se o público está pronto para receber tal dosagem de dor. A boa comédia tem que saber mexer com o espectador, desconfortando e afrontando-o na medida certa para que ele não fique na defensiva e pare de rir.
Então, dentro desta noção geral, "comédia = tragédia + tempo", eu colocaria aquela barrinha de "dividido por" e o fator "surpresa". Um dos principais propiciadores do riso é a surpresa. Ser engraçado é um exercício de surpreender o receptor com algo tão "absurdo" ao ponto de, no nervosismo/desconforto daquele comentário (ou o que seja), provocar uma risada. A tragédia é fácil de encontrar e escrever. O ser humano carrega muita treva, dor e angústia dentro de si. Já o tempo é algo que vem com bom senso, algo muito difícil de uma pessoa sozinha ter, mas com muitas - e o cinema é um esporte coletivo - você acaba conseguindo dosar. A verdadeira técnica é saber encontrar a surpresa, o absurdo. Não à toa a surpresa/o absurdo é a base de algumas várias construções matemáticas do humor como nos "Triplets"(técnica de construção de piada em três partes) e no "Short Form" (técnica de improviso, que é o fundamento básico dos roteiros do Porta dos Fundos, por exemplo).
É a surpresa que impede a comédia de ser uma equação estanque, pois não temos como calculá-la, apenas "criá-la". Surpresa é a busca pelo ineditismo ou, pelo menos, pelo não-usual. É o que faz a comédia ser tão mais difícil do que escrever drama.
Essa foi a minha filosofada sobre comédia. E é uma reflexão super necesária para roteiristas. A gente pode nunca saber o que é a comédia como um todo, mas temos que saber sempre ONDE que está a graça nas coisas que escrevemos. Independente de conseguirmos êxito nesta missão, temos que saber "onde" e "como" estamos tentando buscar o riso.
O que vocês acham disso tudo? Será que discordam? Será que concordam? Será que vamos conseguir vencer uô ô ô ô ô ô?
Venham somar e (assim) multiplicar os comentários!
Todas as sextas-feiras eu respondo perguntas enviadas pelos leitores do blog. Se quiser me mandar uma, acesse este link e aperte enviar (ou tente nos comentários!).
Vamos ao desta semana!
Olá, Ana Cleia
Você é xará da minha querida avó, então já gosto de você de cara!
Então, nem isso (curso) precisa, pra dizer a verdade. O indispensável você diz já ter - muita criatividade e gostar de escrever. O que é determinante pra virar um roteirista é você passar a reparar, compreender e dominar a estrutura e a dinâmica narrativa do roteiro para, depois, desenvolver a técnica de produção de um roteiro. Um curso de extensão, com certeza, pode te ajudar nesta tarefa, mas você pode também fazer isso sozinha, catando material aqui e ali, lendo muito roteiro, vendo muito filme e, com muita força de vontade, refletindo sobre tudo isso. Não conheço este curso especificamente, mas o SENAC é uma instituição séria, com bastantes cursos legais, então imagino que este possa ser bacana e te acelerar este processo, pois é difícil - ainda mais em português - ficar catando coisas confiáveis/boas relativas a roteiro.
Convido-te, humildemente, para dar uma lida no site todo - aproveita que é um espaço recente, não são tantos posts - que tem alguns posts por aí com dicas pragmáticas pra esse começo. De cara lembro deste, essa semana teve esse, rolou essa série de 4 posts e semanalmente rolam posts novos neste estilo na sessão que eu chamo SOS Roteirista. Então é só acessar sempre pra aprofundar, pois conhecimento estanque é apenas informação. Só quando debatemos, discutimos etc. que compreendemos, aprendemos, apreendemos e sedimentamos, de fato, como conhecimento.
Aguardo seus comentários nos posts pra aprendermos juntos!
Vamos ao desta semana!
Olá, Eduardo, tudo bem?
Sou formada em Letras, muito criativa e cansei de todo mundo me mandar escrever....rs
Resolvi fazer um curso de extensão no Senac, para entender o processo de construção de roteiros. Pergunto: Basta gostar de escrever, ser criativo, basta um curso de extensão?? Me dá uma dicas!!! Please!
Valeu.
Ana Cleia
Olá, Ana Cleia
Você é xará da minha querida avó, então já gosto de você de cara!
Então, nem isso (curso) precisa, pra dizer a verdade. O indispensável você diz já ter - muita criatividade e gostar de escrever. O que é determinante pra virar um roteirista é você passar a reparar, compreender e dominar a estrutura e a dinâmica narrativa do roteiro para, depois, desenvolver a técnica de produção de um roteiro. Um curso de extensão, com certeza, pode te ajudar nesta tarefa, mas você pode também fazer isso sozinha, catando material aqui e ali, lendo muito roteiro, vendo muito filme e, com muita força de vontade, refletindo sobre tudo isso. Não conheço este curso especificamente, mas o SENAC é uma instituição séria, com bastantes cursos legais, então imagino que este possa ser bacana e te acelerar este processo, pois é difícil - ainda mais em português - ficar catando coisas confiáveis/boas relativas a roteiro.
Convido-te, humildemente, para dar uma lida no site todo - aproveita que é um espaço recente, não são tantos posts - que tem alguns posts por aí com dicas pragmáticas pra esse começo. De cara lembro deste, essa semana teve esse, rolou essa série de 4 posts e semanalmente rolam posts novos neste estilo na sessão que eu chamo SOS Roteirista. Então é só acessar sempre pra aprofundar, pois conhecimento estanque é apenas informação. Só quando debatemos, discutimos etc. que compreendemos, aprendemos, apreendemos e sedimentamos, de fato, como conhecimento.
Aguardo seus comentários nos posts pra aprendermos juntos!








